quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Relativizar

É curioso constatar que (quase) tudo é relativo. Os grandes problemas e as grandes soluções estão, afinal, muito mais dependentes da perspectiva do que da realidade. Haverá algum problema existencial, filosófico ou emocional que não mude radicalmente de figura quando relativizado?
O estado de espírito, tantas vezes influenciado de formas diversas por factores externos, é determinante no que diz respeito a esta questão. Qualquer sensação pode ser violentamente exacerbada na circunstância certa, sob o efeito da emoção... ou reduzida a quase nada num momento de reflexão objectiva - eis a magia da razão.
Não quero com isto dizer que a razão deve prevalecer sobre a emoção em toda e qualquer circunstância, longe disso. Afinal os conceitos são tão relativos como tudo o resto... "bem" e "mal", "certo" e "errado" não existem em si. Não são mais que projecções por nós criadas, linhas orientadoras pelas quais temos necessidade de nos reger na tentativa de organizar minimamente o caos em que consiste (sobre)viver. E quão surpreendente pode ser constatar que não há princípios absolutos, não há regra sem excepção! Pois tudo pode ser relativizado de modo distinto, cada um é livre de viver a sua interpretação, e nem sempre a que mais lhe convém. E é nestes momentos que a pessoa se define enquanto indivíduo, no confronto das suas próprias regras ideológicas com a realidade dos actos que pratica. E que nem sempre coincidem, como todos acabamos por verificar. E desconfio que este processo faça parte daquilo a que chamamos (vulgar e inconsequentemente) "crescer".

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A (des)propósito...

Mais citações.


Bom Conselho

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio vento na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade

Chico Buarque

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Damaged Goods

Há memórias difíceis de apagar. Ou, melhor dizendo, sentimentos... melhor ainda: sensações. A partir de certo momento já não se recorda grande coisa - os mecanismos de recalcamento encarregam-se disso. Mas há sempre os restos do que se passou, que se arrastam e nos arrastam consigo. E podem manifestar-se de formas diversas, nuitas vezes demasiado subtis para serem identificados. Mas eventualmente acontece, torna-se inevitável analisar os motivos subjacentes à questão. Ou será possível viver em negação indefinidamente? Espero que não.
Será a desilusão completamente ultrapassável? À medida que o tempo passa acabamos por desvalorizar os intervenientes na acção e a acção em si, para colocar isto numa perspectiva pseudo-literária. Recalcam-se histórias e motivos e pessoas e lembranças. Mas as sensações eternizam-se. E interferem, inevitáveis, ante a perspectiva de uma semelhança remota com algum acontecimento anterior. Semelhança que pode não ser mais que projectada, imaginada, indesejada. E ainda assim...
Consta que é possível desviar estas sensações, forçando-as a seguir vias alternativas. Entendo, pois, uma das grandes motivações da escrita: afinal escrever é conferir ao pensamento uma dimensão real. E há nisto algo de assustador.
Consta que tudo é possível, que querer é poder. E não querer, será poder também? E evitar a todo o custo, o que será? Pode a sensação de angústia sugerida por uma situação que se assemelha vaga e contextualmente a outras passadas ser ultrapassada pela vontade? Nem tudo tem de ser pavloviano. E, afinal de contas, quase tudo tem arranjo...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Causas Perdidas

Não há causas perdidas. Há causas maiores, outras menores... algumas utópicas, sempre reais. E há desistências e retiradas estratégicas. Há "causas", "perdidas" não.
As causas não se perdem nem se encontram. Nascem de nós, do fundo de cada um, causadas por um ou outro motivo, em momentos de maior ou menor inspiração. Em geral têm fundamento. E, se tudo correr bem, não são inertes: modificam-se, evoluem, avançam numa direcção. Por vezes ganham vida própria e sobrevivem aos seus autores, transcendem-nos. Convertem-se em ideais.
Quando se considera uma causa “perdida”? Penso que morre exactamente onde nasceu… mas num momento diferente, quando o seu autor começa a desistir. Vendo bem, por vezes é mais fácil bater em retirada (mesmo subtilmente). Apenas porque é demasiado desconfortável continuar a acreditar. Mas uma causa nunca morre… limita-se a hibernar. E um dia acorda, faminta, devora os constrangimentos, agride os mecanismos de defesa, olha-nos nos olhos, passa-nos por cima se fingimos não a ver. E é neste confronto que se acorda de um estado de latência (mais ou menos voluntária), que se admite e assume e se volta a acreditar.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Não é costume citar.

Mas desta vez (e doutras talvez), eis uma excepção.


Na Mesa do Santo Ofício

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viémos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.

J.C. Ary dos Santos

domingo, 24 de janeiro de 2010

Ócio e Filosofia

Há alguns anos atrás (algures entre oito e dez) o professor de Filosofia disse, em plena aula, a frase seguinte: "O ócio é o pai da Filosofia". Este pensamento acompanhou-me ao longo dos anos, e estendeu-se a outras questões. A todas, na verdade.
Parece-me lógica a ideia de que o terreno para o acto de pensar se constrói, em primeira análise, nos momentos de ócio - para não dizer mesmo tédio. Mas uma vez adquirido este hábito extraordinário, torna-se difícil controlá-lo; tende a tomar a forma de vício! O pensamento ganha vida própria, insinua-se em muitos momentos do dia, dos mais ociosos ao menos convenientes... e não nos deixa em paz. A análise compulsiva dos acontecimentos, a racionalização em busca de uma razão que muitas vezes não existe - e, em muitas outras, apenas não sabemos explicar - tende a tornar-se uma compulsão difícil de combater. Desafiante, irresistível, inevitável, corrosiva.
Assim sendo, de tempos a tempos - quando a ocasião (não) o permitir - é favor tentar... mais sentir e menos pensar.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Crónicas da Graça - parte I

Tudo começou há uns meses atrás, na Graça - a Graça que, de acordo com a "Guidinha" (aliás, Sttau Monteiro), é uma cidade distinta de Lisboa. Sinto-me tentada a concordar... mas isso são outras coisas.

Eram duas da manhã de um dia de semana tranquilo e eu estava prestes a adormecer a uma hora normal. Eis senão quando oiço uma voz dirigida à janela da vizinha (e ser à sua ou à minha, dada a distância diminuta que medeia entre as duas, é igual). A voz era masculina e o senhor vociferava furioso nestes termos:
- "Tu és uma p***! Andas para aí a dormir com um puto de 26 anos... da idade do teu filho! É uma vergonha! É para toda a gente saber a p*** que tu és!".
Nisto acorrem os vizinhos às janelas respectivas, em socorro da senhora:
- "Ó homem, acalme-se! Deixe lá isso! Vamos ali para cima conversar, para não acordar as pessoas...".
As pessoas já estavam todas acordadas, por esta altura, mas ficou a intenção. Ele, porém, não se demove:
- "Sua desavergonhada! A dormir com um miúdo... ainda por cima monhé! Engataste-o aqui mesmo na Associação!"
Trata-se da Associação Recreativa dos Nove, que tem lugar no rés-do-chão do prédio em frente ao meu, a escassos centímetros da minha porta, onde os locais passam as suas tardes e noites de lazer a beber copos e a jogar bilhar. Portanto (concluí) o senhor não só é potencialmente cornudo como, provavelmente, alcoólico e, ainda por cima, xenófobo! Coitado...
Nisto um vizinho mais voluntarioso desce e leva o homem frenético para longe da janela da sua suposta ex-mulher (digo eu), devolvendo ao nosso beco a tranquilidade habitual.
Confesso que não tive coragem de ir espreitar. Em primeiro lugar, estava de pijama... e pareceu-me um tanto despudorado ir ver o espectáculo. Acho que tenho de abraçar o espírito da Graça e correr para a janela na próxima ocasião - isto é bom demais para se perder!

Tudo começou na Graça... e promete continuar.